INFLUÊNCIA DE DOENÇAS CRÔNICAS NO VALOR ENERGÉTICO DO LEITE HUMANO
Palavras-chave:
Aleitamento Materno, Leite humano, Doenças CrônicasResumo
RESUMO
Introdução: O leite humano contém 87% de água e 13% de nutrientes essenciais ao desenvolvimento infantil. A amamentação promove saúde e vínculo materno, mas doenças como obesidade, diabetes, hipertensão e hipotireoidismo podem alterar sua composição nutricional. Ainda há poucos estudos sobre o impacto dessas condições no valor energético do leite. Objetivo:Correlacionar a presença de doenças crônicas (obesidade, hipertensão arterial, diabetes e hipotireoidismo) em lactantes doadoras com o teor energético do leite humano. Método: Estudo observacional, quantitativo e transversal realizado em um Banco de Leite Humano em Goiás, entre junho de 2024 e junho de 2025. Avaliou-se o valor energético do leite, por meio do crematócrito, comparando doadoras com doenças crônicas e saudáveis. Os dados foram extraídos de fichas e prontuários, seguindo normas éticas. Resultados: Foram incluídas 34 doadoras, sendo 5 com comorbidades. A média de energia do leite foi 551,2 kcal/L. Doadoras com diabetes e hipotireoidismo controlados apresentaram valores elevados; a com hipertensão teve o valor mais baixo. A obesidade controlada mostrou pouca variação. Conclusões: Doenças crônicas podem influenciar o valor energético do leite humano, embora não sejam os únicos fatores envolvidos. O estudo contribui como base para futuras pesquisas com amostras maiores.
Palavras-chave: aleitamento materno; doenças crônicas; leite humano.
INTRODUÇÃO
O leite humano (LH) é composto majoritariamente por água (87%), garantindo hidratação adequada ao lactente, e por nutrientes essenciais (13%) distribuídos em carboidratos, lipídios e proteínas, que contribuem para o crescimento e desenvolvimento infantil. A lactose, principal carboidrato do LH, fornece energia e favorece a absorção de minerais, enquanto as proteínas e gorduras fornecem elementos imunológicos e calóricos importantes. A amamentação é fundamental para a saúde do bebê, prevenindo doenças e promovendo desenvolvimento físico e neurológico, além de fortalecer o vínculo mãe-bebê. Contudo, condições maternas como obesidade, diabetes, hipertensão e hipotireoidismo podem alterar a composição do leite, afetando níveis de macronutrientes, hormônios e a qualidade nutricional. O hipotireoidismo, por exemplo, pode reduzir a produção e ejeção do leite, enquanto o diabetes altera as concentrações de glicose, lactose, gordura e proteínas, e a hipertensão aumenta proteínas imunológicas no leite. Estudos apontam que essas doenças crônicas maternas modificam significativamente a composição nutricional do LH, embora ainda haja escassez de pesquisas sobre seu impacto direto no valor energético do leite.
MATERIAIS E MÉTODOS
Este é um estudo observacional, quantitativo e transversal realizado em um Banco de Leite Humano (BLH) em Goiás, que analisou amostras de leite ordenhado e doado entre junho de 2024 e junho de 2025, com foco em comparar o teor energético do leite de doadoras com doenças crônicas (obesidade, diabetes, hipertensão e hipotireoidismo) com o de doadoras saudáveis. Foram utilizados dados secundários extraídos de fichas padronizadas do BLH e prontuários médicos, e excluídas amostras com condições físico-químicas inadequadas ou que sofreram acidentes durante a pasteurização. O crematócrito, que indica a concentração de gordura e, portanto, o valor energético do leite, foi obtido seguindo protocolo da Fiocruz, por meio da centrifugação de amostras e medição da coluna de creme. As informações foram organizadas em uma planilha Excel com dados clínicos das doadoras e de seus filhos. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da UniEVANGÉLICA e seguiu as normas brasileiras de pesquisa com seres humanos.
RESULTADOS
Durante o período de coleta, foram analisados os prontuários de 34 doadoras regulares de um Banco de Leite Humano, com o objetivo de avaliar o impacto de doenças crônicas maternas no valor energético do leite humano, medido por meio do crematócrito pré-pasteurização. A média geral foi de 551,2 kcal/L, sendo 552,8 kcal/L entre doadoras saudáveis e 542,4 kcal/L entre cinco doadoras com condições crônicas (duas com obesidade, uma com diabetes, uma com hipertensão e uma com hipotireoidismo). As duas doadoras com obesidade apresentaram médias de seus crematócritos de 521,2 kcal/L e 544 kcal/L, valores próximos da média geral, sugerindo que, embora haja alterações metabólicas associadas à obesidade, o organismo materno pode manter a produção de leite com valor energético adequado, especialmente em casos de obesidade controlada. A doadora com hipotireoidismo apresentou média de 626 kcal/L, acima da média geral, indicando que, se bem controlado, o hipotireoidismo pode não comprometer o teor energético do leite, apesar de seus efeitos potenciais sobre a síntese de lipídios e proteínas.
A amostra da doadora hipertensa foi a que apresentou o menor valor energético (399 kcal/L), revelando possível interferência negativa da hipertensão na concentração de gordura do leite, fato corroborado pela literatura. Por outro lado, a doadora com diabetes mellitus controlada teve os valores mais elevados (média de 723 kcal/L), indicando que o controle glicêmico pode levar a alterações na composição lipídica do leite e ao aumento de seu valor calórico. Em síntese, embora o número de doadoras com comorbidades seja reduzido, os dados apontam que certas doenças crônicas, especialmente quando não bem controladas, podem impactar o valor energético do leite humano, enquanto outras, sob controle adequado, não necessariamente causam prejuízo nutricional significativo ao lactente.
CONCLUSÃO
A pesquisa permitiu uma análise detalhada do valor energético do leite humano doado e das condições de saúde das doadoras, contribuindo para a garantia da qualidade do leite destinado aos lactentes. Embora a incidência de doenças crônicas entre as participantes tenha sido baixa, os resultados indicam que essas condições podem influenciar o crematócrito, mas não são os únicos fatores envolvidos, apontando a necessidade de estudos adicionais. A principal limitação foi a interrupção do processamento de leite na unidade por problemas técnicos, o que reduziu significativamente a amostra. Ainda assim, os dados mostraram que o leite fornecido aos prematuros na unidade analisada apresenta valor energético adequado, e os autores pretendem utilizar este estudo como piloto para futuras pesquisas com amostras maiores.
AGRADECIMENTOS
Os autores agradecem ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), à Universidade Evangélica de Goiás (UniEVANGÉLICA) e à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (FAPEG) pelo apoio que possibilitou a realização do presente estudo.
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