POR QUE MENTIRAS SE ESPALHAM MAIS RÁPIDO QUE A VERDADE: MECANISMOS COGNITIVOS E SOCIOTÉCNICOS DA DESINFORMAÇÃO NA ERA DIGITAL
Abstract
A desinformação digital constitui um dos desafios mais prementes da sociedade contemporânea, com evidências robustas de que notícias falsas se difundem de forma significativamente mais rápida, profunda e ampla do que informações verdadeiras. O presente artigo, por meio de revisão narrativa da literatura, analisa os mecanismos cognitivos e sociotécnicos que explicam esse fenômeno, com ênfase em três eixos: o modelo de processamento dual de Kahneman, a hipótese spinozana de crença automática de Gilbert e os estudos empíricos sobre difusão diferencial de desinformação conduzidos por Vosoughi, Roy e Aral e por Pennycook e colaboradores. A literatura evidencia que a assimetria informacional não decorre prioritariamente da ação de robôs ou de vieses políticos motivados, mas sim da interação entre a arquitetura das plataformas digitais — que privilegiam a velocidade do impulso sobre a deliberação — e vieses cognitivos evolutivamente conservados, notadamente o viés de confirmação, a heurística da novidade e a tendência automática de acreditar antes de verificar. Os achados indicam que intervenções voltadas ao redirecionamento da atenção para a acurácia informacional, combinadas com estratégias de alfabetização midiática e letramento científico, constituem abordagens promissoras para mitigar o fenômeno. Conclui-se que o combate à desinformação exige compreensão integrada dos substratos psicológicos que tornam o cérebro humano vulnerável a conteúdos falsos, emocionalmente carregados e epistemicamente sedutores.
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Copyright (c) 2026 Rogério Ferreira Gonçalves

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