Legados Ecológicos e Transição da Paisagem no Vale do Paraíba do Sul: do café às pastagens

  • Lucas Santa Cruz de Assis Brasil
  • Mariana Martins da Costa Quinteiros
  • Rogério Ribeiro de Oliveira
Palavras-chave: história ambiental; sistemas socioecológicos; gramíneas exóticas

Resumo

Disciplinas como a história ambiental, a ecologia histórica e a geografia já pressupõem que não existem áreas naturais livres da interferência humana. Através do decorrer do tempo, os diferentes grupamentos humanos, de acordo com a sua organização social e cosmovisão, se relacionaram de diferentes formas com a natureza do entorno, modificando as feições do ambiente a sua volta, produzindo marcas, muitas atuantes até os dias de hoje na configuração da paisagem. A América Tropical, em especial a América do Sul, possuía savanas que apresentavam dominância de capins nativos, mas que não suportaram o pastoreio de mamíferos ungulados. Assim, diversas gramíneas de metabolismo C4 originárias da África foram trazidas para dar suporte a atividade pecuária neste continente. No Brasil, os colonizadores trouxeram o capim-gordura (Melinis minutiflora P. beauv.) para auxiliar na alimentação do gado e possibilitar sua criação sendo empregada esta espécie preferencialmente pelos fazendeiros por conta da sua riqueza em nutrientes para a dieta dos bovinos e resistência à herbivoria. Por serem espécies bastante rústicas e muito bem adaptáveis, as gramíneas africanas, encontraram condições satisfatórias para se desenvolverem nos terrenos empobrecidos e com baixa disponibilidade de água de campos abandonados de café. A pecuária, já presente na região do Vale do rio Paraíba do Sul durante o ciclo do café para abastecimento local, tornou-se o uso majoritário do solo após a decadência cafeeira, permanecendo neste posto por toda a região até os dias atuais. Palco de grandes monocultoras cafeeiras ao longo do século XVIII, encontra-se atualmente uma paisagem com pequenos e reduzidos fragmentos florestais e dominada por pastos degradados e de baixa produtividade. Neste trabalho buscou-se realizar uma breve descrição da mais provável trajetória da paisagem do Médio Vale do rio Paraíba do Sul, desde as lavouras de café até o cenário atual de pastagens, identificando as resultantes socioecológicas que conduziram-na em tal direção. Foram combinados dados de campo (entrevistas semiestruturadas e observações diretas), dados obtidos de censos agropecuários e demográficos e relatos históricos oficiais. Os trabalhos de campo foram realizados no município de São José do Barreiro -SP. O objetivo era reunir as memórias individuais e coletivas de pecuaristas e ex-pecuaristas sobre a distribuição de duas gramíneas, o capim-gordura e o capim brachiaria através do tempo. Pelo baixo volume de documentação encontrado sobre a formação da atividade da pecuária na região, e consequentemente, do aumento da distribuição das gramíneas na paisagem, os relatos colhidos durante as entrevistas foram essenciais para propiciar a compreensão da transição das paisagens. As explicações para o decréscimo da atividade cafeicultora e o crescimento da pecuária na paisagem não puderam ser explicados somente por fatores socioeconômicos. Deve ser ressaltado o papel que os fatores físico-ecológicos, em especial as características ecofisiológicas das duas espécies de gramíneas apontadas, desempenharam na moldagem da paisagem do Vale Paraíba do Sul.

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Publicado
2017-11-14
Seção
História Ambiental